⚓ As Pequenas Guerreiras da Armada: As Lanchas-Canhoneiras da década de 1900 que Defenderam Portugal
Ao longo do século XX, a Marinha Portuguesa utilizou diversas lanchas-canhoneiras para garantir a soberania nacional, proteger as vias fluviais e apoiar as forças militares nas antigas províncias ultramarinas. Construídas tanto em Portugal como no estrangeiro, estas pequenas embarcações revelaram-se fundamentais em rios, estuários e águas pouco profundas, onde navios de maior porte não conseguiam operar.
Apesar das suas reduzidas dimensões, muitas destas unidades tiveram carreiras notáveis em África, na Ásia e até em águas nacionais, participando em missões de patrulhamento, apoio às forças terrestres, transporte de pessoal e afirmação da presença portuguesa em territórios distantes.
Neste artigo reunimos algumas das mais importantes lanchas-canhoneiras construídas entre 1901 e 1909, preservando a memória destas pequenas embarcações que desempenharam um papel discreto, mas essencial, na história da Armada Portuguesa.
📑 Índice
Classe "Cacheu" (1901-1915)
As lanchas-canhoneiras da Classe Cacheu foram construídas em Hamburgo, na Alemanha, entrando ao serviço da Marinha Portuguesa em 1901. Concebidas para operar em águas pouco profundas, foram enviadas para a Guiné Portuguesa, onde desempenharam importantes missões de patrulhamento, apoio às autoridades coloniais e afirmação da soberania portuguesa ao longo dos rios e estuários da região.
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| Lancha-Canhoneira "Cacheu" (1901-1915) |
As unidades desta classe destacaram-se pela sua simplicidade, facilidade de manutenção e reduzido calado, características fundamentais para navegar nos cursos de água africanos. Apesar do seu pequeno porte, encontravam-se armadas para responder a ameaças locais e apoiar operações militares quando necessário.
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| Lancha-Canhoneira "Farim" (1901-1907) |
📐 Características Técnicas – Classe "Cacheu"
| Ficha Técnica | |
|---|---|
| Deslocamento | 40 toneladas |
| Dimensões | 23 m comp.; 3,9 m boca; 0,53 m calado |
| Armamento | 1 peça de 37 mm; 2 metr. de 11 mm. |
| Propulsão | 2 máquinas de T.E. de 100 h.p. - 2 veios |
| Velocidade | 10 nós |
| Guarnição | 27 marinheiros |
Classe "Tete" (1903-1921)
A Classe "Tete" foi construída nos estaleiros Parry & Son, em Cacilhas, entrando ao serviço da Marinha Portuguesa em 1903. Estas lanchas-canhoneiras foram especialmente concebidas para operar nos rios da região de Quelimane, em Moçambique, onde as características hidrográficas exigiam embarcações de reduzido calado, boa manobrabilidade e capacidade para navegar em águas interiores.
Embora fossem pequenas unidades, desempenharam um papel importante no patrulhamento fluvial, no transporte de pessoal e material, na proteção das populações e no apoio às autoridades portuguesas. A sua presença permitiu reforçar o controlo da navegação e garantir a soberania portuguesa numa vasta rede de rios e canais.
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| Lancha-Canhoneira "Tete II" (1903-1917) |
A Tete II teve uma carreira relativamente curta, mas marcada por um acontecimento dramático. Em 1917, uma explosão na caldeira provocou a morte do seu comandante e levou à perda da embarcação. Na época, chegou a suspeitar-se que o acidente pudesse ter resultado de um ato de sabotagem levado a cabo por agentes alemães durante a Primeira Guerra Mundial, embora essa hipótese nunca tenha sido definitivamente comprovada.
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| Lancha-Canhoneira "Sena" (1904-1921) |
Outra embarcação representativa desta série foi a Lancha-Canhoneira "Sena", que permaneceu em serviço até 1921. Tal como as restantes unidades da classe, foi utilizada em missões de patrulhamento, fiscalização e apoio às forças destacadas nos cursos fluviais de Moçambique, demonstrando a utilidade destas pequenas embarcações em cenários onde os navios convencionais não conseguiam operar.
📐 Características Técnicas – Classe "Tete"
| Ficha Técnica | |
|---|---|
| Deslocamento | 70 toneladas |
| Dimensões | 30,48 m comp; 3,20 m boca; 0,55 m calado; |
| Armamento | 2 peças de 37 mm; 1 metralhadora de 6,5 mm; |
| Propulsão | 1 máquina de 100 h.p. - 1 rodas de pás a ré |
| Velocidade | 12 nós |
| Guarnição | 28 marinheiros |
📖 Curiosidade
Ao contrário da maioria das canhoneiras portuguesas da época, que utilizavam hélices, as embarcações da Classe "Tete" recorriam a uma roda de pás instalada na popa. Esta solução era particularmente adequada para a navegação fluvial, reduzindo o risco de danos provocados por bancos de areia, troncos ou vegetação submersa.
Lancha-Canhoneira "Rio Minho II" (1904-1948)
A Lancha-Canhoneira "Rio Minho II" foi construída no Arsenal da Marinha, em Lisboa, entrando ao serviço da Armada Portuguesa em 1904. Destinada à vigilância do rio Minho, desempenhou durante mais de quatro décadas um importante papel na fiscalização da fronteira fluvial entre Portugal e Espanha, garantindo a presença permanente da Marinha numa das mais importantes vias navegáveis do norte do país.
Ao longo da sua extensa carreira, participou em missões de patrulhamento, combate ao contrabando, fiscalização da navegação e apoio às autoridades locais. A sua reduzida dimensão permitia-lhe navegar com facilidade nas águas do rio Minho, onde embarcações de maior porte encontrariam dificuldades operacionais.
Depois de prestar serviço durante cerca de 44 anos, a "Rio Minho II" foi abatida ao efetivo dos navios da Armada em 1948, encerrando uma das mais longas carreiras entre as pequenas canhoneiras portuguesas da primeira metade do século XX.
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| Lancha-Canhoneira "Rio Minho II" |
📐 Características Técnicas – Rio Minho II
| Ficha Técnica | |
|---|---|
| Deslocamento | 38 toneladas |
| Dimensões | 24,4 m comp; 3,9 m boca; 0,60 m calado; |
| Armamento | 1 peça de 37 mm; |
| Propulsão | 1 máquinas de 60 h.p. - rodas laterais |
| Velocidade | 7,5 nós |
| Guarnição | 19 marinheiros |
📖 Curiosidade
A "Rio Minho II" pertenceu a uma pequena categoria de embarcações especialmente concebidas para a navegação fluvial. O sistema de propulsão por rodas laterais, pouco comum na Marinha Portuguesa, oferecia excelente manobrabilidade em águas calmas e pouco profundas, sendo particularmente adequado para patrulhar rios e zonas fronteiriças.
Durante décadas, foi uma presença constante no rio Minho, simbolizando a autoridade marítima portuguesa e contribuindo para a vigilância de uma das mais antigas fronteiras da Europa.
Lancha-Canhoneira "Cunene" (1909-...)
A Lancha-Canhoneira "Cunene" entrou ao serviço da Marinha Portuguesa em 1909, tendo sido destinada às operações no rio Cunene, importante curso de água que delimita parte da fronteira entre Angola e a então África do Sudoeste Alemã (atual Namíbia). O seu reduzido porte permitia-lhe navegar em zonas onde embarcações maiores dificilmente conseguiam operar.
Apesar das suas dimensões modestas, esta pequena canhoneira desempenhou missões de patrulhamento, vigilância e apoio às autoridades portuguesas, contribuindo para a afirmação da soberania nacional naquela região africana. A mobilidade e a simplicidade da sua construção tornavam-na particularmente adequada para operar em rios com profundidades reduzidas e margens de difícil acesso.
Tal como outras lanchas-canhoneiras da época, a "Cunene" representava uma solução económica e eficaz para assegurar a presença permanente da Marinha Portuguesa em territórios ultramarinos, onde o controlo das vias fluviais era essencial para a administração e defesa do território.
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| Lancha-Canhoneira "Cunene" |
📐 Características Técnicas – Cunene
| Ficha Técnica | |
|---|---|
| Deslocamento | 10 toneladas |
| Dimensões | 13 m comp; 3,2 m boca; 0,60 m calado; |
| Armamento | 2 metralhadoras de 6,5 mm; |
| Propulsão | 1 máquinas de alta pressão |
| Velocidade | 5 nós |
| Guarnição | 10 marinheiros |
📖 Curiosidade
Com apenas 10 toneladas de deslocamento, a "Cunene" foi uma das menores lanchas-canhoneiras da Marinha Portuguesa. Estas pequenas unidades constituíam um importante elemento de ligação entre os destacamentos militares espalhados pelo interior de Angola, assegurando comunicações, transporte de pessoal e presença permanente da autoridade portuguesa ao longo dos rios.
Lancha-Canhoneira "Macau" (1909-1943)
A Lancha-Canhoneira "Macau" foi uma das mais modernas e robustas embarcações da sua categoria ao serviço da Marinha Portuguesa no início do século XX. Construída em aço nos estaleiros de Glasgow, na Escócia, foi posteriormente lançada à água em Kowloon, a 7 de julho de 1909, entrando ao serviço para operar nas águas de Macau.
Projetada para patrulhar os rios e zonas costeiras do território português no Extremo Oriente, a "Macau" desempenhou missões de vigilância marítima, fiscalização da navegação, proteção do porto e apoio às autoridades locais. A sua maior dimensão e capacidade de armamento permitiam-lhe enfrentar missões mais exigentes do que as restantes lanchas-canhoneiras contemporâneas.
Durante mais de três décadas, navegou sob bandeira portuguesa, tornando-se uma presença habitual nas águas de Macau e contribuindo para a segurança marítima da então colónia portuguesa.
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| Lancha-Canhoneira "Macau" |
Em 9 de março de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, a embarcação foi retirada do serviço português e entregue às autoridades japonesas, numa negociação em que foi trocada por 10 000 sacos de arroz, essenciais para abastecer a população de Macau durante um período de grande escassez. Após a transferência, passou a chamar-se "Maiko".
Terminada a guerra, a embarcação permaneceu no Oriente e, em 1949, foi integrada na frota do governo chinês, recebendo o nome "Wu Chang". Este percurso tornou a antiga canhoneira portuguesa numa das poucas embarcações da Armada que serviram sucessivamente sob três bandeiras diferentes.
📐 Características Técnicas – Macau
| Ficha Técnica | |
|---|---|
| Deslocamento | 135 toneladas |
| Dimensões | 36,5 m comp; 6 m boca; 0,64 m calado; |
| Armamento | 2 peças de 57 mm; 3 metralhadora de 6,5 mm; |
| Propulsão | 2 máquinas de 125 h.p. - 2 veios |
| Velocidade | 12 nós |
| Guarnição | 35 marinheiros |
📖 Curiosidade
A "Macau" foi a maior das lanchas-canhoneiras apresentadas neste artigo. A sua construção em aço, maior autonomia e armamento mais poderoso permitiram-lhe desempenhar um vasto leque de missões durante mais de três décadas no Oriente.
A troca da embarcação por arroz, em 1943, constitui um dos episódios mais invulgares da história da Marinha Portuguesa. Num período marcado pelas dificuldades provocadas pela Segunda Guerra Mundial, essa decisão permitiu assegurar o abastecimento alimentar da população de Macau, demonstrando que, por vezes, um navio podia ter um valor estratégico muito superior ao seu poder militar.
🤔 Conclusão
As lanchas-canhoneiras apresentadas neste artigo demonstram a importância que estas pequenas embarcações tiveram na história da Marinha Portuguesa durante a primeira metade do século XX. Embora modestas quando comparadas com cruzadores ou canhoneiras oceânicas, desempenharam missões fundamentais na defesa dos interesses portugueses, patrulhando rios, estuários e zonas costeiras em Portugal, África e Ásia.
Muitas destas embarcações serviram durante décadas, acompanhando a evolução tecnológica da Armada e testemunhando importantes acontecimentos da história nacional. Apesar de hoje serem pouco conhecidas, constituem um património naval de enorme valor histórico, merecendo ser recordadas pelo papel que desempenharam na afirmação marítima portuguesa.
A Viagem Continua...
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